Uma espiada em "FEITOS DE PAIXÃO E VIOLÊNCIA"...

Exclusivamente para vocês!

Queridas leitoras, é com muita felicidade que compartilho com vocês as primeiras páginas de meu novo livro Feitos de paixão e violência, com lançamento previsto para abril de 2026. É um dark romance que mistura suspense, humor ácido e uma pitada de ficção científica. Depois da leitura, peço que vocês compartilhem comigo as suas primeiras impressões: é muito importante que sejam sinceras!

Aproveitem o gostinho!

FEITOS DE PAIXÃO E VIOLÊNCIA

Estação Rodoviária das Cerejeiras.

Portão B.

Duas e meia da tarde.

Repito tudo mentalmente mais de vinte vezes até decorar, como a matéria de uma prova difícil transformada em letra de música. 

A quem interessar, hoje estou a caminho de encontrar o grande amor da minha vida — ou, no mínimo, alguém para quebrar meu ciclo de três anos sem um beijo decente. Abel e eu nos conhecemos há dois meses no Minder — sim, aquele aplicativo que promete te colocar no caminho da sua alma gêmea por uma assinatura mensal de 9,90 — e quando mencionei que estava não apenas pronta, mas terrivelmente ansiosa para um encontro cara a cara, ele se ofereceu para me buscar na estação rodoviária e me levar para conhecer o mundinho dele em Átila, a capital. O trajeto dura exaustivas doze horas e, quando finalmente chego, dou uma última conferida no cabelo e na maquiagem antes de descer do ônibus com as pernas dormentes. Nada me preparou para o alvoroço de gente andando, correndo, subindo e descendo. Há mais pessoas, animais, malas e vendedores ambulantes aqui do que no centro comercial inteiro da minha cidade. Abraço minha mochila com força e engulo em seco. Não curto muito multidões, mas já estou dez minutos atrasada e isso é uma falha grave, então mergulho no mar de gente como uma verdadeira desbravadora. 

Sou sacudida e jogada como uma bola de tênis de um lado para o outro e trombo forte com alguém que praticamente me joga para longe e me faz derrubar a mochila. Fico atordoada por um instante, mas me abaixo a tateio o chão ao meu redor até encontrar as alças — então agarro a mochila e corro até achar a placa do bendito portão B.

Xingo baixo ao sentir a testa e as costas suadas e me escondo atrás de uma coluna de sustentação da rodoviária para dar uma rápida conferida na minha aparência. Meu espelho de mão não costuma mentir e, felizmente, ele me diz que ainda estou decente. Respiro fundo e procuro por Abel no meio da agitação. Ele disse que estaria usando uma camiseta vermelha e que chegaria pontualmente às duas e meia. São duas e quarenta e dois agora — será que ele cansou de esperar e deu no pé?

— Gina?

Giro sobre os calcanhares e me deparo com um rapaz mais ou menos da minha altura — uns dois ou três centímetros mais baixo —, cabelos escuros encaracolados, olhos castanhos, cavanhaque ralo e uma camisa bordô de mangas arregaçadas até os cotovelos. O rosto é o mesmo e a voz é igual, mas... porque Abel parece tão diferente das fotos e chamadas de vídeo? O rosto é mais oval, os olhos são mais separados e a altura... a descrição do perfil dele alegava que ele tinha 1,82, mas não deve chegar nem a 1,70. Minha garganta fica apertada, mas ofereço meu sorriso mais caloroso. Já cheguei até aqui, não posso vacilar agora.

— Abel!

Ele passa um braço ao meu redor e me aperta contra si, esfregando meu ombro com a palma da mão.

— A viagem foi tranquila?

Abel cheira a colônia de loja de departamento e pasta de dente genérica e está usando jeans escuros e tênis de corrida.

— Sim, tudo certo.

Ele sorri e o aperto no meu coração se suaviza um pouquinho. Pelo menos o sorriso bonito é o mesmo das fotos.

— Vamos? Quero levar você para um passeio antes do jantar.

Meu sorriso cresce quando ele me oferece o braço como um cavalheiro e abre caminho para sair comigo da estação rodoviária. Visualizei esse momento centenas de vezes vindo para cá. Átila é conhecida por ser uma metrópole cultural riquíssima onde estão os melhores teatros, museus, casas de shows e exposições de arte, então já fantasiei mil e um encontros românticos em cafeterias superfaturadas, catedrais de arquitetura gótica e cinema ao ar livre.

— Vamos caminhar no parque — diz ele, animado.

Trinco os dentes para manter meu sorriso firme e esconder a frustração. 

— No parque?

— É, você vai adorar. Tem muito verde e ar puro.

Olho para minhas sandálias de salto quadrado e para os tênis esportivos dele — ah, entendi. Abel segura minha mão com carinho e me puxa para atravessar a avenida mais larga na qual já pisei, minha mochila sacolejando nas costas de um jeito meio patético. Eu me sinto meio patética. Se soubesse que pisaria em terra e grama, teria vindo de calça e tênis, não de sandálias e saia plissada. A única parte boa é que Abel não consegue tirar os olhos das minhas pernas e isso faz maravilhas com a minha autoestima. É muito bom que ele me queira.

Chegamos ao parque e, devo admitir, o dia está lindo e a vista do todo é de tirar o fôlego. É sábado, então muita gente trouxe família, amigos e bichinhos de estimação para passear, o que acrescenta uma série de cores e formas ao verde e marrom da paisagem.

— Você vem muito aqui? — pergunto a Abel, balançando nossas mãos entrelaçadas como se já fôssemos comprometidos.

— Raramente, na verdade. Não saio muito durante o dia.

— Hum. E o que costuma fazer durante a noite?

— Ah, o normal. Vou a festas e jogos com meus amigos do trabalho.

— Legal, legal. Eu também gosto de festas. Como vai o trabalho? Conseguiu alugar aquele apartamento?

Abel é um corretor de imóveis novato e tem dado sangue, suor e lágrimas para cair nas graças da chefe. Semana passada ele me contou que estava tentando convencer um casal a alugar o último apartamento de um prédio antigo com problemas de alvará.

— Ah... não. Nem me fale. Aquelas garotas implicaram com absolutamente cada cantinho do lugar e eu perdi a paciência. Vou tentar arranjar um locatário homem, é sempre mais fácil de lidar.

— Hum, entendi.

— Quer sorvete?

— Seria ótimo, tô morrendo de calor.

Nós nos aproximamos de um carrinho de sorvetes e Abel pede e paga pelo dele, então me encara com expectativa, esperando que eu faça o mesmo. Dou uma risadinha constrangida, tiro a carteira do bolso da saia e compro meu sorvete. Ocupamos um banco à sombra de uma árvore e ficamos em completo silêncio até terminarmos de mastigar as casquinhas de sorvete. Eu não esperava que Abel se oferecesse para pagar pelo que eu consumisse — afinal, estamos nos conhecendo —, mas eu estaria mentindo para mim mesma se dissesse que não sinto uma decepção devastadora com o rumo que nosso encontro está tomando.

Faço todas as perguntas e conduzo toda a conversa — que, convenhamos, se parece cada vez mais uma entrevista com uma celebridade. Abel mal me olha nos olhos e já esbarrou vezes demais na minha cintura e nas minhas pernas para ser “acidente”. Embora ele esteja bem do meu lado, não dá sinais de que tem grande interesse em me conhecer. É como se eu fosse apenas uma companhia conveniente enquanto ele espera, sei lá, o próximo ônibus.

O sol está sumindo atrás das árvores quando Abel suspira alto e confere o relógio de pulso.

— Acho que já podemos ir jantar. Fiz reserva num restaurante ótimo, você vai adorar.

Ele se inclina e me beija na bochecha. É rápido, mas é o bastante para que eu tenha certeza de que não estou gostando do encontro e muito menos dele. Estou cansada de andar, ganhei, no mínimo, cinco bolhas nos pés e preciso desesperadamente de um banho. Já sei tudo que preciso saber sobre ele. Mas também estou com fome, então decido que é melhor dispensar Abel depois do jantar, para não soar grosseira. Ele fez uma reserva, afinal de contas.

Abel entrelaça os dedos nos meus e me puxa pela calçada para fora da grama e do parque.

— São só alguns quarteirões daqui, fica tranquila.

Paro de andar e olho espantada para ele.

— A gente vai andar até o restaurante?

Abel não deixa de sorrir.

— É, eu tô sem carro no momento. Mas fica tranquila, é pertinho.

— Meus pés estão doendo um pouco, mas... — Encaro o sorriso dele, agora não tão bonito assim. — É, acho que tudo bem. Se é perto...

Abel solta minha mão e passa o braço pela minha cintura.

— Eu sabia. Você não é fresca como as outras meninas. É uma das coisas que mais gostei em você.

Se ele soubesse o quanto isso está longe de soar como um elogio, se contorceria até o chão de tanta vergonha — mas como ele próprio não sabe, eu é que sinto a vergonha alheia. 

Esta é a última vez, digo a mim mesma. Nunca mais vou precisar por algo assim de novo.

Mesmo não tendo pernas tão compridas, Abel caminha a passadas largas demais para que eu acompanhe e praticamente me arrasta por cinco quarteirões até chegarmos ao restaurante que, completando o desastre deste dia, é um restaurante especializado em massas. Massas — que eu já disse a ele que como todo santo dia em casa. Muito orgulhoso de si mesmo, Abel me lança um sorriso conquistador por cima do ombro antes de dar o próprio sobrenome ao garçom que nos aborda na entrada. Ele deve pensar que está me impressionando ou algo assim. E está, de certa forma — me sinto impressionada com tamanha mediocridade e como tudo não passa de uma grande perda do meu tempo.

Ocupamos um ótimo lugar no restaurante, perto da janela e com apenas uma mesa mais próxima. Um lugar bastante decente para um primeiro encontro, admito, mas eu gostaria que minha companhia estivesse um pouco mais interessada em me conhecer. 

Peço licença e vou ao banheiro para secar o suor do rosto e retocar a maquiagem, mas, quando abro a mochila, percebo que está vazia. Minha troca de roupa de emergência, minha agenda, meu carregador de celular e minha necessaire com maquiagem, absorventes e balas de menta simplesmente sumiram. Fico paralisada diante da pia do banheiro, recapitulando cada segundo da viagem para tentar lembrar de qualquer possibilidade de assalto. Ninguém chegou nem perto de abrir minha mochila. A não ser pelo momento em que a derrubei na rodoviária, estive com ela agarrada ao corpo o tempo todo — e mesmo quando derrubei, não deu tempo de alguém abrir o zíper e roubar minhas coisas. Aliás, quem roubaria minhas coisas?

Limpo o delineado borrado no canto do olho direito e respiro fundo. Minhas mãos tremem, mas decido não me desesperar. Já passei por situações muito piores. Está tudo bem, você consegue se virar. Ainda estou com a carteira e o celular, então as perdas não foram tão terríveis — embora eu goste muito da blusa azul-bebê insubstituível que perdi. 

Retorno para a mesa e Abel percebe no mesmo segundo que não estou bem.

— Aconteceu alguma coisa?

Mostro a mochila vazia para ele.

— Fui roubada.

— Poxa, que chato... Infelizmente acontece muito aqui. Levaram algo de valor?

— Só de valor sentimental. E algumas maquiagens importadas que me custaram meses de trabalho, mas... — Ergo o celular. — O mais caro ainda está aqui. O que é ótimo, porque ainda preciso pagar as duas últimas parcelas.

Dou uma risada nervosa e olho para Abel, esperando... não sei exatamente o que espero que ele faça, mas qualquer coisa seria melhor do que nada. Que é o que ele faz.

— Que alívio. — Ele abre outro sorriso charmoso. — Quer comer macarrão?

Abro a boca, mas não consigo dizer nada. Abel faz um gesto para o garçom e pede macarrão para nós dois antes que eu possa contestar e dizer que quero só uma salada. Fico paralisada, olhando com os olhos arregalados para ele, incrédula e esperando que ele perceba que não estou contente. Fui assaltada e tudo o que ele tem a dizer é “poxa, que chato”?

— E aí — Abel apoia os cotovelos na mesa e se inclina para mais perto de mim —, tem planos de sair da casa dos seus pais? Se mudar para cá, talvez?

Deixo uma risada grave escapar e dou um gole na água trazida pelo garçom. Minhas mãos ainda tremem.

— Não tão cedo. Meu emprego ainda não deixa.

— Ah. Você disse que trabalha na lavanderia da sua família, né?

— Padaria. Sim, é. Precisei trancar a faculdade porque as coisas ficaram um pouco complicadas lá em casa depois que meu tio adoeceu.

— Que pena. O que ele tem?

— Ele sofreu um acidente de trabalho e teve uma infecção. Looonga história.

— Melhoras para ele.

Sorrio.

— Obrigada.

Abel me encara em silêncio durante alguns segundos e estende a mão para segurar a minha. Na primeira vez que ele me tocou, senti arrepios promissores, mas agora só sinto o toque de outra pessoa comum.

— Se algum dia quiser se mudar para cá, posso te ajudar. Tem um bairro ótimo com apartamentos lindos que são a sua cara, a uma meia hora daqui. Eu conseguiria fazer um ótimo desconto para você e sem caução, hein — e ri.

Certo, ele finalmente acaba de me dar uma brecha para desenvolver um assunto mais sério que levaria esse encontro ao seu verdadeiro propósito, mas tudo o que sinto é… asco. Escapo do toque dele devagar e bebo mais água.

— Bom saber, obrigada.

Onde está o maldito macarrão?

Como fico bem quieta, Abel preenche os minutos seguintes falando sobre si mesmo — as metas que ele espera bater no trabalho, a casa que quer comprar, o carro em que está de olho há meses e que parece esperar por ele na concessionária, e, por último, o tipo de garota que ele namorou. Interrompo duas vezes para ir ao banheiro só para ter uns minutinhos de paz e ele tem a coragem de me perguntar, rindo, se sofro de incontinência urinária.

Quando decido que já não suporto mais ouvir a voz dele ou olhar para ele, a comida chega. Meu estômago ronca alto e eu bato o garfo no prato de louça branca para disfarçar. O sujeito da mesa ao lado, de costas para mim, acaba de pedir um vinho caro e minha boca chega a salivar de vontade de pedir um também, mas desisto da ideia no mesmo segundo — não estou a fim de dividir um vinho bom e caro com Abel.

— Hummm — Abel junta os dedos em forma de trouxinha e sacode no ar —, simplesmente divino.

Experimento o macarrão e, para o meu alívio, é realmente delicioso e quase compensa todo o desgosto da tarde e da noite.

— Se não aguentar comer tudo, pode mandar para o meu prato. Você tem cara de que come pouco.

Pouso o garfo.

— O quê?

Abel sorri mastigando.

— É um elogio. Você tem uma cintura fininha e ótimas pernas. Nem parece que trabalha numa padaria.

Tá, eu cansei.

— Desculpa, mas isso não é elogio. O que meu corpo tem a ver com o fato de que trabalho numa padaria?

— Nada, nada. — Ele cobre minha mão com os dedos. — Falei brincando. Só quis dizer que você é muito linda.

Dou de ombros.

— Era só ter dito.

— E te deixar ficar toda convencida? Não, não, você já deve ouvir isso o tempo todo — ele ri enquanto enrola o macarrão no garfo. — Garotas bonitas como você precisam de bastante humildade ou caras como eu nunca teriam chance alguma.

Que vontade de bater a cabeça na mesa.

O cara da mesa ao lado tem uma crise de tosse e me distrai por um segundo da resposta curta e grossa que estou prestes a dar a Abel. Sorte a dele.

— Acho melhor a gente só comer — resmungo, baixando os olhos para o meu prato.

Abel ri, mas não diz mais nada.

Nós terminamos de comer e eu recuso a sobremesa. Uma garçonete recolhe os pratos e entrega a prancheta da conta para Abel, que olha para o valor do jantar de canto de olho e então me encara.

— Vamos para um lugar mais sossegado? De que tipo você gosta?

Franzo a testa.

— Tipo do quê?

Abel sorri e se inclina até roçar a boca no meu ouvido.

— Gosta de motéis temáticos ou de alguma coisa mais elegante? Vou te deixar escolher dessa vez.

A onda de repulsa que sobe pela minha espinha me faz recuar para longe dele como se eu tivesse levado um tapa. É aqui que eu percebo que cheguei ao meu limite. Não. Não consigo mais levar esse tipo de coisa até o fim. Não sirvo mais para isso.

— Não, eu... eu preciso pegar o ônibus de volta para casa às nove e meia.

É muito interessante ver o sorriso sumir aos poucos do rosto de Abel quando ele compreende o que quero dizer. A postura dele muda de um jeito drástico, como se outro homem tivesse sentado em seu lugar de repente.

— Como assim? Não foi por isso que você veio? Você disse que queria dar um passo adiante.

— Sim, para te conhecer pessoalmente.

Abel franze o cenho.

— Achei que você fosse mais mente aberta, sabe.

Solto uma lufada de ar pelo nariz.

— E o que ser mente aberta significa para você?

— Olha, você me fez desmarcar vários compromissos importantes, sair para caminhar no meio da tarde e reservar o melhor restaurante da cidade só para dar uma de puritana agora e se recusar a fazer a sua parte?

Arregalo os olhos e rio de choque.

A minha parte?

— É claro. Isso aqui é uma via de mão dupla, Gina. Eu te trouxe para cá e te mimei o dia todo e agora que eu quero que a gente tenha um momento agradável a sós você quer pular fora?

Ah, mas isso já é demais.

Afasto a cadeira da mesa e fico de pé.

— Escuta aqui, Abel. Você não me trouxe para cá, a minha passagem foi paga com o meu próprio dinheiro. E, se não me falha a memória, nem o sorvete que tomei naquele maldito parque você pagou. Quando foi que eu fui mimada? Foi quando você me arrastou pela calçada como se estivesse rebocando um carro ou quando não demonstrou o mínimo interesse por nada além das minhas pernas?

— Shh, senta aí e conversa comigo como uma adulta.

Shh?

Dou uma risada amarga.

— Não, não vou sentar. Cansei de você.

Pego minha mochila e tomo o rumo da saída do restaurante, mas Abel fica de pé e me segura pelo braço, erguendo a prancheta com a conta.

— Não vou pagar isso aqui sozinho, sua interesseira.

— Interesseira? — Desvencilho meu braço da mão dele. — Uau, Abel, realmente, não vejo a hora de me aproveitar do carro de luxo e de todo o dinheiro que você não tem.

Dou as costas para ele, mas sinto um puxão nos cabelos que me faz cambalear para trás. Dois garçons e uma garçonete se aproximam e os clientes sentados nas outras mesas olham na minha direção. Sinto meu rosto arder de raiva e vergonha. Eu devia ter dispensado esse idiota muito mais cedo. Na real, devia ter recusado me prestar a esse papel ridículo desde o começo.

Abel me puxa contra o corpo dele e, apertando minha nuca, sussurra em meu ouvido:

— Eu vou pagar a conta e a gente vai pra um lugar bacana. Se você fizer escândalo, não vai chegar na estação para pegar seu ônibus, entendeu? Não tô brincando, Gina. Você não sabe com quem está falando.

Engulo em seco e sinto meu corpo todo ficar paralisado de um pavor instantâneo. Espera. Ele realmente acabou de dizer o que penso que disse? Isso está mesmo acontecendo comigo?

— Senhor... a conta — diz o garçom mais próximo, olhando de soslaio para mim.

Abel me solta devagar, o corpo ainda roçando no meu, e saca a carteira do bolso da calça.

— Vocês parcelam em quantas vezes no crédito? — Ele segura o cartão entre o dedo médio e o indicador como se fosse um troféu.

O garçom se aproxima para pegar o cartão, olhando desconfiado para mim, mas algo o impede. Ou melhor, alguém. Uma mão desconhecida segura o pulso de Abel e toma o cartão dos dedos dele. Ergo a cabeça devagar, estremecendo, e vejo, parado ao meu lado, um rapaz alto e musculoso vestindo um terno escuro. 

É o sujeito sentado à mesa do lado, aquele que pediu vinho caro.

— Ei — protesta Abel —, tá de brincadeira, amigo?

— Eu não brinco.

A voz do desconhecido é grave, ríspida e profunda e ele olha diretamente nos meus olhos.

— Ele está incomodando a senhorita?

O primeiro pensamento que me ocorre é: santo pão sírio, esse é o ser humano mais lindo que já pisou na face da Terra. Seguido rapidamente de: por que um deus grego braçudo desse tá se metendo nessa bagunça? Fico momentaneamente aérea, atordoada pela beleza dele, mas consigo assentir.

O desconhecido ergue uma sobrancelha do mesmo tom de castanho claro de seus cabelos.

— Quer que eu interfira?

— Acho melhor você cuidar da sua vida, amigo — diz Abel, estufando o peito para parecer mais alto. — A senhorita e eu já nos entendemos. Não é, Gina?

Permaneço encarando o desconhecido sem conseguir desviar o olhar ou piscar. Aquiesço uma única vez, muito sutilmente, e a compreensão toma as feições dele. Com um único golpe veloz, ele agarra Abel pela nuca e o empurra de cara contra a mesa, imobilizando-o com o susto. Então se inclina e sussurra algumas palavras que não consigo ouvir, mas que fazem o corretor de imóveis empalidecer e responder um “sim, senhor” bem pianinho.

O desconhecido devolve o cartão de crédito a Abel, que me lança um olhar de ódio antes de passar por mim e sair do restaurante sem olhar para trás. Sinto as pernas bambas e quase caio, mas o desconhecido me mantém de pé me segurando somente pela mochila. Olho outra vez dentro dos olhos dele, azuis, lindos e profundos, e me pergunto se na verdade não estou dormindo no meu quarto e sonhando com tudo isso.

Muito obrigada!

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